Para responder a esta pergunta precisamos primeiro de saber os benefícios e a riqueza da comunidade.
Na sociedade pensamos geralmente que somos preenchidos pela compra de coisas, mas não compramos realmente coisas, compramos experiências, ou seja a experiência que determinado produto nos dá durante tempo limitado. A maioria dos produtos da era da informação é cada vez mais etérea, menos material.
Essa é uma razão para a superficialidade universalmente reconhecida de maioria das reuniões sociais. Quão autênticas podem elas ser, quando o saber inconsciente, 'Eu não preciso de ti,' rasteja sob a superfície? Quando nos juntamos para consumir, comida, bebida ou entretenimento, extraímos realmente as dádivas de alguém presente? Qualquer um consegue consumir. Intimidade vem da co-criação, não do co-consumo, como qualquer um numa banda lhe conseguirá dizer e é diferente de gostar ou desgostar de alguém. Mas numa sociedade monetizada, a nossa criatividade acontece em domínios especializados, por dinheiro.
A comunidade é tecida de dádivas. Ao contrário do sistema de mercado de hoje, cuja escassez embutida incita a competição na qual mais para mim é menos para si, numa economia de dádivas o oposto é mantido. Porque as pessoas numa cultura de dádivas passam o seu excesso em vez de o acumular, a sua boa fortuna é a minha boa fortuna: quanto mais para si mais é para mim. Riqueza circula, gravitando para a maior carência. Numa comunidade de dádivas, pessoas sabem que suas dádivas eventualmente regressarão para elas, assim frequentemente sobre uma nova forma. Tal comunidade será chamada um "círculo da dádiva."
Felizmente, o monetizar da vida alcançou o seu pico no nosso tempo e está a começar uma longa e permanente recessão (da qual a 'recessão' económica é um aspecto). Tanto por desejo e necessidade, estamos poisados num momento crítico de oportunidade para reclamar a cultura da dádiva e desta forma edificar verdadeira comunidade. A reclamação é parte de uma mudança maior da consciência humana, uma reunião maior com a natureza, terra, uns com os outros e partes perdidas de nós mesmos. Nossa alienação da cultura da dádiva é uma aberração e nossa independência uma ilusão. Não somos na realidade independentes ou 'seguros financeiramente', somos tão dependentes como antes, só que de instituições impessoais e estranhos, e, somos mais propensos a descobrir em breve, que estas instituições são muito frágeis."
"O número ideal de participantes num círculo de dádiva é 10 a 20. Cada um se senta num círculo e diz uma ou duas necessidades que por turnos. No último círculo que presenciei, algumas das necessidades foram: 'uma boleia ao aeroporto na próxima semana,' 'alguém para remover um gradeamento,' 'madeira usada para construir um jardim,' 'uma escada para limpar o meu esgoto,' 'uma mota,' e 'mobília de escritório para um centro comunitário.' À medida que cada pessoa partilha, outras no círculo conseguem entrar para se oferecerem para partilhar a necessidade declarada, ou com sugestões de como a encontrar.
Quando todos têm a sua vez, damos a volta ao círculo de novo, cada pessoa declara algo que ele ou ela gostaria de dar. Alguns exemplos da semana passada foram 'aptidões de design gráfico,' 'o uso das minhas ferramentas,' 'contactos no governo local para tratar de coisas,' e 'uma mota,' mas podia ter sido qualquer coisa: tempo, habilidades, coisas materiais, uma dádiva de algo directo, ou a dádiva do uso de alguma coisa (emprestar). Novamente, à medida que cada pessoa partilha, qualquer um pode falar e dizer, "Gostaria disso," ou "Sei de alguém que podia dar uso a isso."
Durante ambas estas rondas, é útil ter alguém que anote tudo e envie as notas no próximo dia via email, ou numa página web, blogue, etc. Caso contrário é muito fácil esquecer quem precisa e oferece o quê. Também, sugiro anotar, na hora, o nome e o número de alguém que quer dar ou receber algo de\para si. É essencial dar seguimento, ou o círculo acabará por alimentar cinismo em vez de comunidade.
Finalmente, o círculo pode fazer uma terceira ronda na qual as pessoas exprimem gratidão pelas coisas que receberam desde o último encontro. Esta ronda é extremamente importante porque na comunidade, o testemunho da generosidade dos outros inspira generosidade naqueles que estão a testemunhá-la. Isso confirma que este grupo está a dar uns aos outros, que as dádivas são reconhecidas, valorizadas e reciprocadas também.
É tão simples quanto isso: necessidades, dádivas e gratidão. Mas os efeitos podem ser profundos.
Primeiro, círculos de dádiva (e qualquer economia de dádiva, na realidade) consegue reduzir a dependência do mercado tradicional. Se as pessoas nos derem coisas que precisamos, não precisaremos de as comprar. Não será necessário apanhar um táxi para o aeroporto amanhã, e Rachel não terá de comprar madeira para o seu jardim. Quanto menos usamos dinheiro, menos tempo passaremos a tentar ganhá-lo e mais tempo teremos para contribuir para a economia de dádiva e então receber dela. É um círculo vicioso.
Secundariamente, um círculo de dádiva reduz a nossa produção de lixo. É ridículo bombear petróleo, minar metal, fabricar uma mesa e a enviar para o outro lado do oceano quando metade das pessoas na cidade têm mesas velhas nas suas caves. É ridículo também que cada casa no meu bairro tenha um corta-relvas, que usam duas horas por mês, um soprador de folhas que usam duas vezes por ano, ferramentas que usam para um projecto ocasional e assim por diante. Se partilhássemos estas coisas, não sofreríamos perda de qualidade de vida. Nossas vidas materiais seriam tão ricas, contudo necessitariam de menos dinheiro e menos desperdício."
"..A mesma transição para a dádiva está a caminho no reino social. Muitos de nós já não aspiram à independência financeira, o estado no qual temos tanto dinheiro que não precisamos de depender de ninguém para coisa alguma. Hoje, cada vez mais, ansiamos em vez disso por comunidade. Não queremos viver num mundo de comodidades, onde tudo o que temos existe pela meta principal de lucro. Queremos coisas criadas por amor e beleza, coisas que nos conectem mais profundamente às pessoas ao nosso redor. Desejamos ser interdependentes, não independentes. O círculo de dádiva e muitas novas formas da economia de dádiva que estão a surgir na Internet, são maneiras de reclamar os relacionamentos humanos do mercado.
Seja natural ou social, a reclamação da riqueza comum baseada na dádiva não só acelera o colapso do sistema monetário dependente do crescimento, ela também mitiga a sua severidade. No presente momento, o mercado enfrenta uma crise, meramente uma de uma multiplicidade de crises (ecológicas e sociais) que estão a convergir sobre nós. Pelo tempo turbulento que está sobre nós, a sobrevivência da humanidade e a nossa capacidade de construir um novo tipo de civilização incorporando um novo relacionamento à terra e uma nova e mais conectada identidade humana, dependem destes restos da riqueza comum que somos capazes de preservar ou reclamar. Embora tenhamos feito graves danos à terra, vasta riqueza ainda permanece. Há ainda riqueza no solo, água, culturas e biomas deste planeta. Quanto mais persistirmos sob o status quo, menos dessa riqueza permanecerá e mais calamitosa a transição será.
Num nível menos tangível, quaisquer dádivas que doemos contribuem para outro tipo de riqueza comum, um reservatório de gratidão que zelará por nós em tempos de turbulência, quando as convenções e histórias que ostentam a sociedade cívica se desmoronarem. Dádivas inspiram gratidão e generosidade é infecciosa. Cada vez mais, leio e escuto histórias de generosidade, desinteresse, até magnanimidade que me tiram a respiração. Quando testemunho generosidade, quero ser generoso também. Nos tempos vindouros, quereremos a generosidade, o desinteresse e a magnanimidade de muitas pessoas. Precisamos das dádivas uns dos outros como precisamos da generosidade uns dos outros para nos convidar a nós mesmos para o reino da dádiva. Em contraste com a era do dinheiro onde podemos pagar por tudo e não precisamos de dádivas, em breve será abundantemente claro: precisamos uns dos outros."
~ Charles Eisenstein, Círculo de Dádivas
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